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'Eu fracassei': Kim Jong-un mostra lado emotivo ao enfrentar dificuldades da Coreia do Norte

Ditador norte-coreano chorou no fim de semana ao fazer um raro pedido de desculpas por seu fracasso em guiar o país em tempos tumultuados

13/10/2020 00h40
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Por: Redação Fonte: O GLOBO
'Eu fracassei': Kim Jong-un mostra lado emotivo ao enfrentar dificuldades da Coreia do Norte

SEUL — O ditador norte-coreano, Kim Jong-un, derramou lágrimas no fim de semana ao fazer um raro pedido de desculpas por seu fracasso em guiar o país em tempos tumultuados, exacerbados pelo fechamento das fronteiras por causa da pandemia e tufões. Ele também agradeceu aos cidadãos por seus sacrifícios, na demonstração mais contundente de como conta com sua personalidade de "homem do povo" para enfrentar as crises cada vez mais profundas em seu país.

— Nosso povo depositou confiança em mim, tão alta quanto o céu e tão profunda quanto o mar, mas não consegui sempre viver de acordo com isso de forma satisfatória — disse Kim, com voz embargada. — Eu realmente sinto muito por isso.

A cena ocorreu durante o desfile militar no sábado, em comemoração ao 75º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia, legenda única no país. Kim se emocionou ao prestar homenagem às Forças Armadas por sua resposta aos desastres naturais e na prevenção do surto de coronavírus e pediu desculpas aos cidadãos por não ter conseguido elevar os padrões de vida da população.

— Embora me seja confiada a importante responsabilidade de liderar este país defendendo a causa dos grandes camaradas Kim Il-sung e Kim Jong-il, graças à confiança de todas as pessoas, meus esforços e sinceridade não foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades em sua vida — continuou, citando seu avô e pai, os dois líderes anteriores da Coreia do Norte.

O discurso, que foi claramente voltado para o público interno, provavelmente consolidou a imagem de Kim como um líder competente e carismático que também tem um lado humano, disse Rachel Minyoung Lee, pesquisadora independente e ex-analista da Coreia do Norte para o governo dos EUA.

— A modéstia e a franqueza de Kim, suas lágrimas e a voz embargada, foram todos altamente incomuns, mesmo para alguém que reconhece publicamente as deficiências — afirmou a pesquisadora.

Kim, que sorriu largamente quando novos mísseis balísticos intercontinentais foram exibidos no desfile, culpou as sanções internacionais, a crise do coronavírus e uma série de tufões e inundações destruidores pelas contínuas dificuldades econômicas da Coreia do Norte.

Desde que sucedeu seu pai em 2011, Kim tornou o progresso econômico uma pedra angular de sua agenda. Mas planos ambiciosos para o comércio internacional, projetos de construção e outras medidas econômicas foram paralisados devido à interrupção das negociações que poderiam pôr fim às sanções internacionais contra os programas nuclear e de mísseis do país.

A economia sofreu um novo golpe quando a Coreia do Norte fechou suas fronteiras devido à pandemia, e os tufões do verão no hemisfério norte causaram inundações que ameaçaram ainda mais o abastecimento de alimentos.

Kim disse que o sucesso do país em impedir que o coronavírus atingisse a população foi uma "grande vitória alcançada" pelos cidadãos.

— Nosso povo sempre foi grato ao nosso partido, mas ninguém menos que ele próprio merece uma reverência agradecida — disse ele.

O foco nos cidadãos foi uma mudaça nesse tipo evento, nos quais os discursos são geralmente preenchidos com temas mais ideológicos e elogios ao Partido dos Trabalhadores da Coreia, disse a analista Lee.

Abordagem pessoal

Em contraste com seu pai, Kim levou sua mulher a cúpulas políticas com líderes estrangeiros e muitas vezes abraçou crianças e se misturou com trabalhadores em aparições públicas.

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Algumas dessas atitudes moldaram sua resposta pública aos desafios econômicos do país, disse Benjamin Katzeff Silberstein, especialista em economia norte-coreana do centro de estudos Stimson Center, com sede nos Estados Unidos.

— Kim tem estado mais pessoalmente presente e visível em locais que passam por desastres e similares, e ele deu prioridade a projetos de construção que visam mostrar o progresso econômico — explicou.

Mas Kim não é um reformista radical e suas prescrições de política tendem a se basear no manual elaborado por seu pai e avô, disse Silberstein.

As Nações Unidas afirmam que, no governo de Kim, a Coreia do Norte continuou a violar as liberdades básicas, mantendo campos de prisioneiros políticos e vigilância estrita de seus cidadãos. Kim mandou executar seu tio, de acordo com a mídia estatal, e os EUA acusaram seu governo de usar o agente químico VX para assassinar seu meio-irmão, Kim Jong-nam, em 2017, uma alegação que Pyongyang negou.

Na semana passada, Kim pediu a seu país que embarcasse em uma "batalha de aceleração" de 80 dias, uma campanha para atingir metas econômicas antes de um congresso em janeiro para decidir um novo plano quinquenal.

Essas campanhas, que envolvem cidadãos realizando trabalho extra "voluntário", foram descritas por alguns norte-coreanos como "uma das partes mais exaustivas e irritantes da vida cotidiana", disse Silberstein.

— Kim respondeu com lágrimas, desculpas, batalhas de aceleração e espremendo fundos onde quer que possam ser encontrados — afirmou.

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