Terça, 27 de Julho de 2021
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Lais Souza fala do desafio de ser tetraplégica e seguir estudando 

Ex-atleta conta que deixou a graduação diante da dificuldade de conciliar a rotina de saúde e demais atividades 

17/07/2021 17h03 Atualizada há 1 semana
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Por: Redação Fonte: R7 - Alex Gonçalves, do R7*

Em entrevista ao portal R7, a ex-ginasta Lais Souza, 32 anos, fala dos desafios conciliar os estudos e a rotina com a saúde. Ela também fala sobre a dificuldade que uma pessoa tetraplégica enfrenta em um país "com acessibilidade crítica". 

Lais deu início em cursos de graduação como História na modalidade EAD e Psicologia no ensino híbrido, mas não conseguiu dar continuidade. "Eu sempre fui uma aluna ativa, que aprende quando a aula acontece, no online também é possível, mas no meu atual momento é necessário ter calma", avalia. "A saúde precisa estar em dia e eu também preciso estar bem com meu trabalho e minha família para retomar os meus estudos com concentração nas aulas."

No dia 27 de janeiro de 2014 a ex-ginasta sofreu um acidente de esqui em Salt Lake City, nos EUA que a deixou tetraplégica. Ela sofreu uma séria lesão na coluna cervical que comprometeu as funções motora, sensitiva e autonômica. "É preciso organizar horários para se preparar um tetraplégico para uma atividade externa, por exemplo, tudo demanda mais tempo e planejamento”, explica. O que, muitas vezes, se transforma em uma barreira para frequentar um curso ou escola.

A psicopedagoga Ivone Scatolin Serra destaca, em primeiro lugar, que é preciso analisar como estão as questões de inclusão da atualidade. “De qual forma está sendo vista a inclusão? Atualmente nós vivemos em um momento de polarizações que impedem esse olhar de aceitação das diferenças”, diz. “A gente sabe que só ter uma legislação não resolve”.

A psicopedagoga refere-se ao Estatuto da Pessoa com Deficiência instituído em 2015, que garante a educação para todas as pessoas com deficiência e que o sistema educacional deve ser inclusivo em todos os níveis de ensino.

Ivone avalia que a pandemia trouxe o afastamento social e consequentemente muitas desistências em todos os níveis de ensino. “É preciso garantir o apoio socioemocional com as famílias e instituição de ensino, para que possam surgir novos caminhos para estes alunos, diminuindo o risco de evasão escolar”.

Bolsas permitem que atletas continuem com os estudos

Segundo a especialista, a adaptação aos planos de ensino são processos fundamentais para o sucesso do processo de inclusão na escola.  Na visão de Ivone é importante que as instituições educacionais tenham um olhar diferenciado aos alunos especiais, garantindo a inclusão por meio de programas de apoio. “Programas de estudo adaptados, professores-tutores, sensibilização do coletivo, garantia de acessibilidade física (rampas, elevadores e espaços físicos)”, explica. “É preciso também garantir recursos tecnológicos assistidos por meio de computadores com acesso especial a cadeira de rodas, por exemplo”.

Os incentivos educacionais permitem que atletas continuem com os estudos por meio das bolsas de estudos. Nos Estados Unidos a prática é mais comum, no Brasil a Estácio em parceria com a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) beneficia ginastas, treinadores de seleções e colaboradores com as bolsas de estudo.

"Todos nós devemos ter oportunidades iguais para irmos em busca dos nossos objetivos, acho essencial os incentivos educacionais, claro que existem obstáculos no caminho, mas é importante continuar”, diz Lais. “Quanto mais apoio o atleta recebe, mais promissora sua vida acadêmica e profissional será."

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Sobre o futuro, Lais fala sobre as expectativas e projetos. "Eu gostaria de desenvolver algo que possa fomentar a consciência ambiental, como o plantio de arvores, por exemplo. Algo que eu sei que irá transformar o mundo de alguma forma", diz. "Quero também constituir uma família e permanecer com a minha saúde em dia", diz.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pelo acidente, Lais segue buscando por seus direitos e qualidade de vida. “A cada entrevista, a cada palestra que participo eu tento mostrar algo para que as pessoas possam entender mais a realidade das minorias, que aliás, hoje em dia não são mais minorias”, conta. “Hoje eu defino o tema acessibilidade no país com uma única palavra: critica. Vejo que tem melhorado, mas ainda falta estrutura, já estive em muitos lugares que ainda não estão preparados para receber pessoas nas condições semelhantes a qual vivo hoje em dia, temos de lutar pela igualdade.”

*Estagiário do R7 sob supervisão de Karla Dunder

 

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